Diarreia e constipação intestinal durante a quimioterapia: o que comer em cada caso


A quimioterapia pode afetar o intestino de formas opostas — em algumas pessoas provoca diarreia, em outras, constipação. E não é incomum que o mesmo paciente passe pelos dois quadros em momentos diferentes do tratamento, dependendo do protocolo, das medicações utilizadas e de fatores individuais.

Nos dois casos, a alimentação tem um papel de apoio importante — mas o manejo é bem diferente. 

Confundir as estratégias pode piorar o desconforto em vez de aliviar.

Por que a quimioterapia afeta o intestino

Alguns tipos de quimioterapia podem afetar o trato gastrointestinal. Isso acontece, em parte, porque o tratamento também pode atingir células saudáveis que se renovam rapidamente, como as células que revestem o sistema digestivo.

A diarreia pode ocorrer quando o tratamento interfere no funcionamento do intestino e na absorção de água e nutrientes.

Já a constipação pode ter outras origens: uso de determinadas medicações, redução da ingestão de líquidos e fibras, menor atividade física e, em alguns casos, o próprio efeito do tratamento sobre o funcionamento intestinal.

Ou seja: nem sempre a alteração intestinal é causada apenas pela quimioterapia. Por isso, entender o contexto de cada paciente é importante para definir a melhor estratégia.

Diarreia durante o tratamento: o que ajuda

A diarreia é um efeito colateral frequente de alguns tratamentos contra o câncer e, quando mais intensa, pode levar à desidratação e à perda de eletrólitos. Por isso, o cuidado nutricional soma-se — mas nunca substitui — a avaliação da equipe médica e o tratamento indicado para a causa da diarreia.

Algumas estratégias alimentares podem ajudar a reduzir o desconforto durante o episódio:

- Fazer refeições menores e mais frequentes, em vez de grandes volumes de comida de uma só vez
- Priorizar temporariamente alimentos com menor teor de fibras insolúveis, como arroz branco, macarrão, pão ou torradas, batata cozida e outros alimentos bem tolerados
- Manter a hidratação ao longo do dia, priorizando água e outros líquidos bem tolerados
- Quando houver perdas importantes de líquidos, utilizar solução de reidratação oral conforme orientação da equipe de saúde
- Observar a tolerância a leite e derivados, já que algumas pessoas podem apresentar piora dos sintomas relacionados à lactose durante um episódio de diarreia
- Reduzir alimentos muito gordurosos, bebidas cafeinadas e outros alimentos que, individualmente, possam piorar os sintomas

Em alguns casos, alimentos que fornecem sódio e potássio também podem fazer parte da alimentação durante o episódio, como caldos, batata e banana. Isso, porém, não substitui uma estratégia adequada de reidratação quando as perdas são importantes.

Esse padrão alimentar costuma ser temporário. Conforme os sintomas melhoram, a alimentação pode ser ampliada gradualmente, de acordo com a tolerância de cada pessoa.

Constipação durante o tratamento: o que ajuda

A constipação também é frequente durante o tratamento oncológico e pode estar relacionada à própria doença, a determinados medicamentos, à menor ingestão de líquidos e alimentos ou à redução da atividade física.

Diferentemente da diarreia, a fibra insolúvel pode ser uma aliada em muitos casos de constipação — mas não em todos. O aumento deve ser gradual e acompanhado de ingestão adequada de líquidos. Em algumas situações, como quando existe suspeita de obstrução intestinal, aumentar fibras pode não ser indicado.

Algumas estratégias podem ajudar:

- Aumentar as fibras insolúveis gradualmente, quando indicado e conforme a tolerância, incluindo frutas, verduras, cereais integrais e leguminosas
- Garantir uma ingestão adequada de líquidos ao longo do dia — aumentar fibras sem hidratação suficiente pode não ajudar e pode aumentar o desconforto
- Incluir alimentos que podem favorecer o funcionamento intestinal, como ameixa, mamão e aveia, conforme a tolerância individual
- Manter alguma atividade física, quando houver liberação médica, já que o movimento corporal pode favorecer o funcionamento intestinal
- Para algumas pessoas, uma bebida morna pela manhã pode ajudar a estimular o funcionamento intestinal

Quando a constipação está relacionada a determinadas medicações, a alimentação e os hábitos de vida podem não ser suficientes. Nesses casos, o manejo médico pode incluir medicamentos específicos para regular o intestino.

Por isso, se a constipação é persistente ou está causando bastante desconforto, converse com seu oncologista. A alimentação entra como parte do cuidado, não como solução isolada.

Um ponto em comum entre os dois casos

Tanto na diarreia quanto na constipação, mudanças persistentes no hábito intestinal merecem atenção.

Sangue nas fezes, febre, sinais de desidratação, dor abdominal intensa ou progressiva, barriga muito distendida, vômitos ou dificuldade para eliminar gases devem ser comunicados à equipe médica o quanto antes. Em pacientes com câncer, constipação importante pode evoluir para impactação fecal ou obstrução intestinal, situações que exigem avaliação médica.

A alimentação pode ajudar a atravessar esses sintomas com mais conforto, mas não substitui a avaliação clínica quando o quadro foge do esperado.

Cada paciente, um protocolo diferente

Não existe um cardápio único que sirva para todo mundo.

O tipo de quimioterapia, as medicações utilizadas, a fase do tratamento, os sintomas apresentados, a alimentação habitual e a tolerância individual podem mudar completamente a estratégia mais adequada.

Na prática clínica, é justamente esse conjunto de informações que orienta os ajustes na alimentação.

Cada paciente, um momento. E cada momento pode pedir um cuidado diferente.


Sou nutricionista com mais de 15 anos de experiência clínica em oncologia, com formação também em nutrição funcional. Atendo presencialmente em São José do Rio Preto e também de forma online para todo o Brasil.

Se você tem dúvidas sobre sua alimentação durante o tratamento, agende uma consulta. Para agendar uma consulta: Whatsapp da Clinica CACV. Atendo presencialmente em São José do Rio Preto — SP e online para todo o Brasil.


Referências

  1. Arends J, Bachmann P, Baracos V, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clin Nutr. 2017;36(1):11-48.
  2. Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913.
  3. Benson AB 3rd, Ajani JA, Catalano RB, et al. Recommended guidelines for the treatment of cancer treatment-induced diarrhea. J Clin Oncol. 2004;22(14):2918-2926.
  4. National Cancer Institute. Diarrhea and Cancer Treatment. Bethesda: National Cancer Institute; updated May 16, 2025.
  5. Rogers BB, Ginex PK, Anbari A, et al. ONS Guidelines™ for Opioid-Induced and Non–Opioid-Related Cancer Constipation. Oncol Nurs Forum. 2020;47(6):671-691.
  6. National Cancer Institute. Constipation and Cancer Treatment. Bethesda: National Cancer Institute; updated 2025.
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