Radioterapia e alimentação: o que muda durante o tratamento?
"Vou precisar mudar minha alimentação?"
Essa costuma ser uma das primeiras perguntas de quem vai começar a radioterapia.
E a resposta é: depende da região do corpo que será tratada.
Ao contrário da quimioterapia, que age em todo o organismo, a radioterapia atua em um local específico. Por isso, os sintomas variam bastante de uma pessoa para outra — e a alimentação também precisa ser adaptada de forma diferente em cada situação.
Na maioria das vezes, essas mudanças são temporárias. Saber o que pode acontecer ajuda a passar pelo tratamento com mais tranquilidade e evita que pequenos sintomas prejudiquem a alimentação.
Por que a radioterapia pode dificultar a alimentação?
A radioterapia destrói as células do tumor, mas alguns tecidos saudáveis próximos também podem sofrer um efeito temporário da radiação.
Dependendo da região tratada, isso pode provocar boca seca, alteração do paladar, dor para engolir, náuseas, diarreia ou outras mudanças que acabam interferindo na alimentação.
Esses sintomas costumam aparecer a partir da segunda ou terceira semana de tratamento e, na maioria dos casos, melhoram após o seu término.
Cada região do corpo traz desafios diferentes
Quando a radioterapia é na cabeça e no pescoço
É comum surgirem boca seca, alteração do paladar, mucosite e dificuldade para engolir.
Nessa fase, normalmente orientamos pequenas adaptações que costumam tornar as refeições mais confortáveis:
- escolher alimentos mais macios e úmidos;
- evitar preparações muito quentes, ácidas ou apimentadas;
- acrescentar caldos, molhos ou azeite aos alimentos;
- manter uma boa higiene da boca;
- beber água em pequenos goles ao longo do dia.
Cada paciente sente esses sintomas de uma forma diferente. Por isso, as orientações também precisam ser individualizadas.
Quando a radioterapia é no tórax
Nesse caso, algumas pessoas desenvolvem inflamação do esôfago, o que pode causar dor ao engolir ou sensação de refluxo.
Refeições menores, alimentos mais macios e evitar preparações que irritem ainda mais essa região costumam ajudar bastante durante esse período.
Quando a radioterapia é no abdômen ou na pelve
Náuseas, diarreia e alterações intestinais são alguns dos sintomas mais frequentes.
É nessa fase que muitos pacientes perguntam: "Existe uma dieta para quem faz radioterapia?"
Na prática, não.
Existe uma alimentação que precisa ser adaptada aos sintomas que cada pessoa apresenta.
Um estudo mostrou que pacientes acompanhados por um nutricionista durante a radioterapia tiveram melhor ingestão alimentar, melhor estado nutricional e melhor qualidade de vida⁴.
É exatamente isso que buscamos no consultório: fazer os ajustes necessários para que a alimentação continue sendo uma aliada durante o tratamento.
O que costuma ajudar durante a radioterapia?
Embora cada paciente tenha necessidades diferentes, alguns cuidados costumam fazer diferença:
- fazer pequenas refeições ao longo do dia;
- manter uma boa hidratação;
- consumir proteínas diariamente para preservar a massa muscular;
- adaptar a textura dos alimentos quando houver dificuldade para mastigar ou engolir;
- evitar permanecer muitas horas sem comer.
São medidas simples, mas que ajudam a manter o estado nutricional e tornam esse período mais confortável.
Não espere emagrecer para procurar ajuda
Uma recomendação importante das diretrizes internacionais é que o acompanhamento nutricional comece antes ou logo no início do tratamento.
Isso permite identificar precocemente dificuldades para se alimentar, perda de peso ou redução da massa muscular, facilitando intervenções antes que esses problemas se agravem.
Na prática, é muito mais fácil prevenir do que recuperar depois.
Quando vale a pena procurar um nutricionista?
Procure orientação se você perceber:
- perda de peso sem intenção;
- dificuldade para comer por vários dias;
- dor persistente ao engolir;
- náuseas ou diarreia que estejam atrapalhando a alimentação;
- alteração importante do paladar.
Na maioria das vezes, pequenas mudanças já fazem diferença no conforto e na qualidade de vida durante o tratamento.
Conclusão
A radioterapia pode trazer mudanças na alimentação, mas elas variam conforme a região tratada e costumam ser temporárias.
Com orientação adequada, é possível adaptar a alimentação de acordo com cada fase do tratamento, reduzindo desconfortos e ajudando a manter o estado nutricional.
Cada paciente vive essa experiência de uma forma única. Por isso, a alimentação também deve ser individualizada, respeitando os sintomas, as necessidades e a rotina de cada pessoa.
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Referências bibliográficas
- Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clinical Nutrition. 2021;40(5):2898-2913.
- Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, Bozzetti F, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition. 2017;36(1):11-48.
- National Cancer Institute. Nutrition in Cancer Care (PDQ®) – Health Professional Version. Atualizado em 20 set. 2024.
- Ravasco P, Monteiro-Grillo I, Vidal PM, Camilo ME. Dietary counseling improves patient outcomes: a prospective, randomized, controlled trial in colorectal cancer patients undergoing radiotherapy. Journal of Clinical Oncology. 2005;23(7):1431-1438.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Guia de Nutrição para Pacientes e Cuidadores. 4ª ed. Rio de Janeiro: INCA; 2021.

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