Segurança alimentar durante o tratamento oncológico: por que esse cuidado ganha outro peso

"O que eu posso comer durante a quimioterapia?" É uma pergunta comum em meu consultório. E, dentro dela, quase sempre existe uma preocupação mais específica: será que algum alimento pode colocar o tratamento em risco?

Essa preocupação faz sentido. Durante algumas fases do tratamento oncológico, especialmente quando determinados medicamentos reduzem temporariamente a quantidade de glóbulos brancos, o organismo pode ficar mais vulnerável a infecções.

Isso não significa que seja preciso viver em restrição ou retirar uma série de alimentos da rotina. Significa que alguns cuidados com a segurança dos alimentos passam a ter ainda mais importância.

Por que a segurança dos alimentos merece mais atenção durante a quimioterapia?

Alguns protocolos de quimioterapia podem causar uma redução temporária dos neutrófilos, células importantes para a defesa do organismo contra infecções. Esse período de maior vulnerabilidade pode variar de acordo com o tratamento, o momento do ciclo, os exames laboratoriais e as condições clínicas de cada pessoa.

Por isso, nem todo paciente em quimioterapia apresenta o mesmo grau de vulnerabilidade, e os cuidados necessários também podem variar ao longo do tratamento.

É justamente nesse contexto que a segurança dos alimentos ganha importância: uma contaminação que talvez não representasse um grande problema para uma pessoa saudável pode ter consequências mais relevantes para alguém que esteja temporariamente mais vulnerável.

Não é sobre medo. É sobre reduzir riscos que podem ser evitados com medidas simples no dia a dia.

O que a ciência recomenda?

As diretrizes internacionais de nutrição oncológica reforçam a importância de manter uma alimentação adequada durante o tratamento e de adotar boas práticas de segurança alimentar, especialmente para reduzir o risco de exposição a microrganismos potencialmente causadores de infecções.

Na prática, isso significa prestar atenção à higiene dos alimentos, à conservação, à temperatura, ao cozimento e à prevenção da contaminação cruzada.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) também orienta pacientes e cuidadores sobre cuidados relacionados à higiene, conservação, validade e preparo dos alimentos durante o tratamento.³

O que muda na prática, no dia a dia?

Não é sobre restringir por restringir. É sobre reduzir riscos desnecessários com escolhas simples.

Higienização

Frutas, verduras e legumes devem ser lavados em água corrente, um a um — no caso das folhas, folha a folha — inclusive aqueles que serão descascados.

Isso é importante porque, ao cortar um alimento que não foi adequadamente higienizado, a faca pode levar microrganismos presentes na superfície para a parte que será consumida.

Para frutas e hortaliças que serão consumidas cruas, a etapa seguinte é a desinfecção utilizando produto adequado para higienização de alimentos, seguindo exatamente a concentração e o tempo de contato indicados no rótulo.

Produtos à base de hipoclorito de sódio podem ser utilizados quando forem próprios para essa finalidade. É importante lembrar que não é qualquer água sanitária que pode ser utilizada em alimentos: o produto deve indicar no rótulo que é adequado para essa finalidade.

Depois do tempo recomendado, o alimento deve ser enxaguado adequadamente em água potável.

Para alimentos que serão submetidos a cocção adequada, a desinfecção com hipoclorito não é necessária; nesses casos, a lavagem em água corrente e o cozimento adequado são as medidas indicadas.

Temperatura e tempo fora da geladeira

Alimentos preparados não devem permanecer em temperatura ambiente por períodos prolongados.

Como regra prática, evite deixar refeições prontas fora de refrigeração por mais de duas horas. Em ambientes muito quentes, esse tempo deve ser ainda menor.

Depois de servir, o que sobrar deve ser acondicionado em recipiente limpo e fechado e levado à geladeira. Não é necessário deixar a comida "esfriando" por horas em cima do fogão ou da mesa antes de guardá-la.

O mesmo cuidado vale para festas, buffets e refeições fora de casa: alimentos que precisam de refrigeração devem permanecer refrigerados, enquanto preparações quentes devem ser mantidas em temperatura adequada.

Não guardar alimentos abertos na embalagem original

Depois que uma lata, pote ou embalagem é aberta, o alimento passa a ter maior contato com o ambiente e com o manuseio.

O ideal é transferi-lo para um recipiente limpo, com tampa, identificar a data de abertura e seguir o prazo de consumo indicado pelo fabricante para o produto depois de aberto.

A validade impressa na embalagem é estabelecida para o produto nas condições previstas pelo fabricante, e não necessariamente se aplica da mesma forma depois que a embalagem é aberta.

Cozimento adequado

Durante os períodos de maior vulnerabilidade, é importante ter atenção especial aos alimentos de maior risco microbiológico.

Carnes, peixes e ovos devem ser bem cozidos, evitando preparações cruas ou malpassadas.

Isso inclui, por exemplo, ovos com gema crua ou muito mole, carnes malpassadas, carpaccio, tartar e peixes crus, como sushi e sashimi.

Validade e procedência

Observe sempre o prazo de validade dos produtos e evite alimentos com embalagens violadas, estufadas, enferrujadas ou com alterações que indiquem que o produto pode não estar adequado para consumo.

No caso dos queijos e outros produtos lácteos, prefira aqueles produzidos com leite pasteurizado.

Evite a contaminação cruzada

Um alimento seguro pode ser contaminado durante o preparo.

Por isso, evite utilizar os mesmos utensílios ou superfícies para alimentos crus e alimentos que já estão prontos para consumo sem a devida higienização entre os preparos.

Tábuas, facas, bancadas e outros utensílios devem ser bem lavados após o contato com carnes, peixes, ovos ou outros alimentos crus.

Atenção também na hora das compras

No supermercado, observe as condições de armazenamento dos alimentos.

Produtos refrigerados e congelados devem estar em equipamentos que mantenham a temperatura adequada. Evite produtos que estejam fora da refrigeração quando deveriam estar refrigerados ou que apresentem sinais de descongelamento e recongelamento.

Também vale evitar alimentos prontos para consumo que permaneçam expostos por longos períodos sem controle adequado de temperatura.

E quando for comer fora de casa?

Estar em tratamento não significa necessariamente deixar de frequentar restaurantes, encontrar amigos ou comer na casa de familiares.

O cuidado está em escolher estabelecimentos de boa procedência e, principalmente, evitar situações em que não seja possível ter segurança sobre a conservação, a higiene ou o preparo dos alimentos.

Quando não for possível saber como um alimento cru foi higienizado, por exemplo, pode ser mais prudente escolher uma fruta que possa ser descascada na hora ou uma preparação de vegetais cozidos.

Da mesma forma, carnes, ovos e peixes devem ser preferencialmente consumidos bem cozidos. Preparações como carpaccio, tartar, sushi e sashimi merecem atenção especial durante os períodos de maior vulnerabilidade.

São ajustes simples que ajudam a reduzir riscos sem transformar o momento da refeição em uma lista de proibições.

Cada tratamento é um tratamento

Esses cuidados são uma base importante, mas não substituem a orientação individualizada da equipe que acompanha o paciente.

O grau de vulnerabilidade pode variar conforme o tipo de câncer, o protocolo de tratamento, os medicamentos utilizados, os exames laboratoriais e outras condições clínicas.

Por isso, não existe uma única lista de alimentos que sirva para todas as pessoas durante a quimioterapia.

A alimentação precisa acompanhar o momento do tratamento — e não o contrário.

O cuidado não precisa virar peso

Uma coisa que reforço bastante no consultório é que o cuidado com a segurança dos alimentos não deve se transformar em fonte de ansiedade ou culpa para o paciente ou para quem cuida dele.

Lavar adequadamente os alimentos, cuidar da conservação, respeitar a temperatura, evitar contaminações e cozinhar bem os alimentos de maior risco são atitudes simples que fazem parte de uma alimentação segura.

E comer com segurança é perfeitamente compatível com comer com prazer.

Durante o tratamento, informação confiável ajuda a fazer escolhas mais tranquilas — sem restrições desnecessárias e sem transformar a alimentação em mais uma preocupação.


Sou nutricionista com mais de 15 anos de experiência clínica em oncologia, com formação também em nutrição funcional. Atendo presencialmente em São José do Rio Preto e também de forma online para todo o Brasil.

Se você tem dúvidas sobre sua alimentação durante o tratamento, agende uma consulta. Para agendar uma consulta: Whatsapp da Clinica CACV. Atendo presencialmente em São José do Rio Preto — SP e online para todo o Brasil.


Referências

  1. Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clinical Nutrition. 2021;40(5):2898-2913. doi:10.1016/j.clnu.2021.02.005.
  2. Thibault R, Abbasoglu O, Ioannou E, et al. ESPEN guideline on hospital nutrition. Clinical Nutrition. 2021;40(12):5684-5709. doi:10.1016/j.clnu.2021.09.039.
  3. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Guia de nutrição para pacientes e cuidadores: orientações aos usuários. 4. ed. Rio de Janeiro: INCA; 2020.
  4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução-RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004. Dispõe sobre Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de Alimentação.
  5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Cartilha sobre Boas Práticas para Serviços de Alimentação. Brasília: ANVISA.
  6. Rock CL, Thomson CA, Sullivan KR, et al. American Society of Clinical Oncology Guideline: Diet, Nutrition, and Physical Activity During Cancer Treatment. Journal of Clinical Oncology. 2022;40(22):2491-2507. doi:10.1200/JCO.22.00687.

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