Suplementos para imunidade durante o tratamento oncológico: quando são necessários?
Vitamina C. Própolis. Multivitamínico "para fortalecer a imunidade". Chá disso, cápsula daquilo.
Quase toda semana, no consultório, alguém me pergunta se deveria tomar algum suplemento para aumentar a imunidade. Geralmente a recomendação veio de um amigo, um vídeo na internet ou das redes sociais. Afinal, "não custa nada tentar", certo?
Eu entendo completamente essa vontade. Durante o tratamento oncológico, é natural querer fazer algo a mais pelo próprio corpo. A sensação de estar contribuindo para a recuperação traz conforto. O problema é que, quando falamos em suplementos, boa parte das informações que circulam não tem respaldo científico e, em alguns casos, pode até interferir no tratamento.
"Fortalecer a imunidade" não é o que parece
A ideia de fortalecer a imunidade com vitaminas e suplementos parece lógica: quanto mais nutrientes, maior a proteção. Mas o sistema imunológico não funciona por acúmulo. Ele funciona por equilíbrio.
Na prática, um sistema imunológico desregulado também pode funcionar mal. O objetivo não é estimular a imunidade indiscriminadamente, mas oferecer ao organismo as condições para que ela exerça suas funções de forma adequada.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e o World Cancer Research Fund (WCRF), não existe um alimento, vitamina ou suplemento capaz de prevenir ou tratar o câncer de forma isolada. A melhor estratégia é manter um padrão alimentar equilibrado, rico em frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais, adaptado às necessidades e à fase do tratamento de cada paciente.
Ou seja, não é o suplemento "X" que protege o organismo. É o conjunto dos hábitos, construído ao longo do tempo.
O que a ciência diz sobre antioxidantes durante o tratamento
Esse é um dos pontos que mais me preocupa como nutricionista, porque envolve segurança.
Muitos pacientes utilizam altas doses de vitamina C, vitamina E ou outros antioxidantes acreditando que eles vão proteger as células saudáveis durante a quimioterapia ou a radioterapia. A ideia faz sentido à primeira vista, mas os estudos não mostram benefícios consistentes e levantam preocupações importantes.
Um estudo realizado com pacientes com câncer de mama em tratamento quimioterápico observou que o uso de suplementos antioxidantes — além de ferro e vitamina B12 — esteve associado a piores desfechos, incluindo maior risco de recidiva.
Uma das hipóteses é que, ao reduzir o estresse oxidativo, esses suplementos também possam diminuir parte do mecanismo de ação utilizado por alguns tratamentos para eliminar células tumorais. Essa hipótese ainda está sendo estudada e os resultados não são iguais para todos os tipos de câncer e tratamentos, mas são suficientes para justificar cautela.
Por isso, o National Cancer Institute (NCI) recomenda que suplementos alimentares não sejam utilizados por conta própria durante o tratamento oncológico, especialmente quando consumidos em doses elevadas, já que podem interagir com medicamentos e seus efeitos ainda não são completamente conhecidos.
Isso não significa que vitaminas sejam "vilãs". Significa que, durante o tratamento, o momento, a dose e a real necessidade de suplementação devem ser avaliados individualmente.
Não existe suplementação genérica
Um erro bastante comum é acreditar que toda pessoa em tratamento oncológico deveria tomar determinado suplemento.
Não existe uma recomendação universal.
Existe, sim, a imunonutrição: uma estratégia utilizada em situações clínicas específicas, como no preparo para determinadas cirurgias oncológicas, utilizando nutrientes como arginina, glutamina e ácidos graxos ômega-3, sempre dentro de protocolos bem estabelecidos e com acompanhamento profissional.
Ou seja, isso não significa que qualquer paciente com câncer deva comprar glutamina, arginina ou ômega-3 por conta própria. São situações completamente diferentes.
O que eu realmente recomendo
Na maior parte das vezes, quando penso em apoiar a imunidade durante o tratamento, meu foco está nestes pilares:
- ingestão adequada de calorias e proteínas para preservar a massa muscular e favorecer a recuperação;
- alimentação variada, com frutas, verduras, legumes e leguminosas, respeitando a tolerância de cada paciente;
- correção apenas das deficiências nutricionais identificadas em exames ou na avaliação clínica;
- acompanhamento nutricional contínuo, com ajustes conforme as diferentes fases do tratamento.
Na prática clínica, esses fatores costumam ter muito mais impacto na saúde do paciente do que o uso indiscriminado de suplementos. Da mesma forma, dietas extremamente restritivas e alimentos considerados "milagrosos" não encontram respaldo nas evidências científicas atuais e podem, inclusive, comprometer o estado nutricional durante o tratamento².
O ponto mais importante
Se você está em tratamento oncológico e pensa em iniciar qualquer suplemento — seja uma vitamina, um mineral, um chá concentrado ou uma cápsula — converse antes com seu oncologista ou nutricionista. Não por burocracia, mas porque alguns desses produtos podem interagir com medicamentos e alterar a eficácia do tratamento.
Sou nutricionista com mais de 15 anos de experiência clínica em oncologia, e essa é uma das orientações que mais repito no consultório: informação confiável também é uma forma de cuidado.
Se você tem dúvidas sobre sua alimentação durante o tratamento, agende uma consulta. Para agendar uma consulta: Whatsapp da Clinica CACV. Atendo presencialmente em São José do Rio Preto — SP e online para todo o Brasil.
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Mitos e verdades sobre alimentação e câncer. Rio de Janeiro: INCA. Disponível em: https://www.gov.br/inca. (acesso em agosto de 2026)
- World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research (WCRF/AICR). Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer: a Global Perspective. Continuous Update Project Expert Report 2018. Londres: WCRF International.
- Ambrosone CB, Zirpoli GR, Hutson AD, McCann SE, McCann WE, Barlow WE, et al. Dietary supplement use during chemotherapy and survival outcomes of patients with breast cancer enrolled in a cooperative group clinical trial (SWOG S0221). Journal of Clinical Oncology. 2020;38(8):804-814.
- National Cancer Institute. Cancer Therapy Interactions with Foods and Dietary Supplements (PDQ®) – Health Professional Version. Bethesda: National Cancer Institute. Atualizado em 2024. Disponível em: https://www.cancer.gov.
- Ligibel JA, Bohlke K, May AM, et al. Exercise, Diet, and Weight Management During Cancer Treatment: ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology. 2022;40(22):2491-2507.

Comentários