Chás durante a quimioterapia: o que pode, o que evitar e como preparar com segurança

Com a chegada dos dias mais frios, uma dúvida aparece com frequência no consultório: "Posso tomar chá durante a quimioterapia?"
A resposta não é um simples sim ou não. Depende do tipo de chá, da forma de preparo e, principalmente, do momento do tratamento.
Muitas vezes, quando falamos em chá, pensamos apenas em uma bebida quente e reconfortante. Mas durante o tratamento oncológico, alguns detalhes merecem atenção especial. E esses detalhes podem fazer diferença na segurança e no conforto do paciente.
Por que a escolha do chá importa durante o tratamento?
Durante a quimioterapia, o organismo passa por mudanças importantes. A mucosa da boca e do trato digestivo pode ficar mais sensível. Em alguns momentos, o sistema imunológico também pode estar mais vulnerável. Além disso, determinados medicamentos podem interagir com compostos presentes em plantas medicinais.
Isso não significa que o consumo de chá esteja proibido.
Significa apenas que a escolha deve ser individualizada e considerar o tratamento realizado, os medicamentos em uso e os sintomas apresentados naquele momento.
Chás que costumam ser bem tolerados
Alguns chás costumam apresentar boa tolerância e baixo potencial de interação medicamentosa quando consumidos de forma simples e moderada.
Camomila
A camomila costuma ser bem tolerada por muitos pacientes e pode ser uma opção para quem busca uma bebida mais reconfortante ao final do dia.
Gengibre
O gengibre é uma das plantas mais estudadas no contexto da oncologia, especialmente em relação à náusea induzida pela quimioterapia. Em pequenas quantidades, pode ser uma alternativa interessante para alguns pacientes, desde que exista boa tolerância individual.
Erva-cidreira
A erva-cidreira costuma ser uma opção suave e bem aceita, especialmente por quem prefere bebidas de sabor mais leve.
Hortelã
Algumas pessoas relatam melhora da sensação de desconforto gástrico ou do enjoo leve com o uso da hortelã. Além disso, seu sabor pode ser agradável para pacientes que apresentam alterações do paladar durante o tratamento.
Importante: mesmo quando o chá é bem tolerado, a temperatura merece atenção. Bebidas muito quentes podem irritar uma mucosa já sensibilizada pelo tratamento. Em geral, o ideal é consumir o chá morno.
Chás que pedem atenção especial
Existem situações em que a avaliação individual é ainda mais importante.
Chá verde
São bebidas ricas em compostos bioativos e podem interferir na absorção de alguns nutrientes ou interagir com determinados medicamentos. Isso não significa que sejam proibidos, mas o consumo deve ser discutido com a equipe que acompanha o tratamento.
Erva de São João (Hypericum perforatum)
A Erva de São João apresenta interações medicamentosas bem documentadas e pode interferir na ação de diversos medicamentos, incluindo alguns utilizados em oncologia. Por esse motivo, seu uso não deve ser iniciado sem orientação médica.
Chás "detox" e compostos herbais industrializados
Misturas comercializadas com promessas de "desintoxicação", "fortalecimento imunológico" ou "eliminação de toxinas" merecem atenção especial.
Além da falta de evidências científicas robustas para muitas dessas alegações, esses produtos frequentemente combinam diversas ervas em uma única formulação, aumentando o potencial de interação com medicamentos.
Na dúvida, prefira preparações simples e converse com sua equipe de saúde antes de utilizar qualquer composto herbal.
Misturas de ervas em sachês
Nem sempre um sachê contém apenas uma planta. Vale a pena conferir a lista de ingredientes e observar se existem combinações de ervas que possam exigir avaliação individual.
Como preparar chá com segurança durante a quimioterapia
Escolher o chá é apenas parte do processo. A forma de preparo também merece atenção.
Temperatura
Esse é um dos pontos mais importantes.
Durante a quimioterapia, a mucosa oral e esofágica pode estar mais sensível. Bebidas muito quentes podem causar desconforto e agravar irritações já existentes.
Uma regra simples costuma ajudar: se o chá ainda está quente demais para ser consumido confortavelmente, vale esperar mais alguns minutos.
Tempo de infusão
Para a maioria dos chás, entre cinco e oito minutos de infusão costuma ser suficiente.
Infusões excessivamente longas podem concentrar compostos da planta sem necessariamente trazer benefícios adicionais.
Qualidade da água
Sempre que possível, utilize água filtrada ou mineral.
Esse cuidado é especialmente importante em períodos de maior vulnerabilidade imunológica.
Higiene
Observe o prazo de validade dos produtos utilizados e armazene ervas e sachês em locais secos e protegidos da umidade.
Também não é recomendada a reutilização de sachês já utilizados.
Adoçantes e mel
Sempre que possível, procure consumir o chá sem adição de açúcar.
Quando houver necessidade de adoçar, a melhor escolha deve ser individualizada. O uso de mel, por exemplo, pode não ser adequado para todos os pacientes, especialmente em situações específicas relacionadas à imunidade ou às orientações da equipe assistencial.
Uma pergunta que vale guardar
Muitos pacientes chegam ao consultório perguntando:
"Qual chá posso tomar?"
Na prática, existe uma pergunta ainda mais útil:
"Esse chá específico é seguro para o meu tratamento, neste momento?"
A diferença importa.
Porque a segurança de um chá depende do protocolo de quimioterapia, dos medicamentos em uso, do momento do ciclo e de como o organismo está respondendo ao tratamento.
A diferença está nos detalhes — e nos detalhes do seu tratamento.
Por isso, antes de introduzir um novo chá, suplemento ou alimento durante a quimioterapia, vale conversar com o nutricionista oncológico e com a equipe médica responsável pelo acompanhamento.
Em resumo
O frio convida para um chá. E, na maioria das vezes, ele pode fazer parte da rotina com segurança.
Camomila, gengibre, erva-cidreira e hortelã costumam ser opções bem toleradas por muitos pacientes. Já chá verde, Erva de São João e compostos herbais exigem uma avaliação mais cuidadosa.
Além da escolha do chá, aspectos como temperatura, higiene, qualidade da água e forma de preparo também fazem diferença.
Se você está em tratamento oncológico e tem dúvidas sobre alimentação, procure orientação individualizada. Cada tratamento é único — e as orientações nutricionais também devem ser.
Natalia Kodama é nutricionista com mais de 15 anos de experiência clínica em oncologia. Formada pela UNESP, com pós-graduação em Nutrição Hospitalar pela Unicamp e em Nutrição Funcional pela VP Nutrição. Para agendar uma consulta: Whatsapp da Clinica CACV. Atendo presencialmente em São José do Rio Preto — SP e online para todo o Brasil.
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